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✍Entrevista a André da Paz: Filósofo, Historiador e Escritor Brasileiro




O JEdLP inicia as suas entrevistas aos talentos de língua portuguesa com uma conversa com o historiador, filósofo e escritor brasileiro André da Paz. Um jovem de futuro promissor que dedica a sua vida aos estudos de Platão e que partilha com o mundo a sua visão da vida e os seus pensamentos através de artigos que ora são publicados no seu blogue pessoal, ora são publicados em revistas. 

Hoje, à conversa com o JEdLP, ele dá-se a conhecer a todos os leitores lusófonos e fala-nos das suas experiências e paixões. E também dos seus planos futuros.


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☞ Boa noite, André. Não somos, de todo, dois desconhecidos. Porém, gostaria que me falasse um pouco de si. Que repetisse aquilo que me disse anteriormente para que os leitores do JEdLP possam conhecê-lo.

Olá! Boa noite, Raquel. Será um prazer escrever para os leitores do JEdLP.

Sou André da Paz, tenho 23 anos e sou historiador e filósofo. A minha linha de pesquisa tem ênfase em teoria do conhecimento, ontologia e metafísica em geral, na filosofia antiga, e mais especificamente na filosofia de Platão.



☞ Conte-nos, o que é que levou o André a enveredar por essa área. O que é que despertou em si o gosto pela História e pela Filosofia? Mas, em especial, o que é que despertou o seu gosto por Platão?


Cresci imerso no universo da fantasia fantástica. Em meio à criação de personagens para RPGs (Role-Playing Games) e à leitura de fantasia, passei a adolescência em contato com criaturas fantásticas de todos os tipos. Games, livros, contos, tudo sobre fantasia. Apaixonado por mitologia e fantasia em geral, decidi, então, com 16 anos, estudar história. No final da graduação, frustrado com a metodologia de pesquisa em História, decidi afastar-me da área. Quando estava prestes a me formar, tomei contato com o ensino de filosofia e foi como um amor à primeira vista. Tinha que voltar à universidade, para ter uma formação sólida e rigorosa em filosofia. Nas leituras antes de voltar aos estudos na universidade, deparei com Nietzsche e fiquei completamente seduzido por sua filosofia. Ao tomar contato com suas primeiras leituras, notei uma insistente crítica recorrente a Platão, mais especificamente a quatro de seus trabalhos: Fédon, Fedro, Sofista e Timeu. Como todo historiador, necessitava recorrer às fontes de Nietzsche, para compreender as razões e os fundamentos de sua crítica. Nessa digressão metodológica, apaixonei-me irrevogavelmente por Platão. Em suma, os dois primeiros diálogos tratavam, respectivamente, da imortalidade da alma e do amor. Nunca havia lido textos tão belos e tão bem escritos, com tanta profundidade filosófica. Percebi que essa era a pesquisa de uma vida, já que a cada página eu formulava incontáveis questões. Platão é a maior expressão da escrita grega e, ousaria dizer, da prosa ocidental. Nem os grandes alemães ou ingleses da modernidade chegaram perto à beleza desses textos e à sua profundidade dramática e filosófica. Não somente pela beleza, mas também pela relevância de suas questões, Platão estruturou a maneira do Ocidente pensar, seu vocabulário filosófico e sua cosmovisão. Toda apresentação de Platão necessita recorrer à citação do filósofo matemático inglês Whitehead, que diz que toda a filosofia ocidental consiste em sucessivas e incontáveis notas de rodapé a Platão. Não em detrimento de uma doutrina amplamente aceite, mas pelas questões que desenvolve e pelo modo que as constrói, Platão pintou o Ocidente com suas cores. Somos platônicos mesmo sem saber disso, em nosso modo de pensar, de falar e de compreender o mundo. Portanto estudar a estrutura de pensamento de nosso mundo é fascinante. Como um amante da escrita, já habituado às discussões na área das humanidades sobre o pensamento ocidental, encontrei um filósofo que recorre ao mythos, a elementos "fantásticos", para representar, "de um outro modo", ou alegoricamente, suas grandes teorias metafísicas. Essa ligação entre o científico e o fantástico foi a cereja no bolo necessária para eu tornar-me um platonista apaixonado.


☞ Vejo que Platão o inspira de diversas maneiras. E também vejo que o André é um grande amante da beleza e do romantismo. Diga-me: isso condiciona de alguma forma o seu dia a dia? As influências de Platão já o levaram a cometer algum tipo de loucura?

Eu respiro filosofia. Quando comecei a estudar filosofia, não me tornei somente um estudante universitário, ou um aluno de aulas de filosofia. Na experiência que tive como professor, no momento em que comecei a fazer as minhas primeiras leituras filosóficas, tive uma transformação existencial. Como na famosa Alegoria da Caverna de Platão, eu tive uma "virada na alma", com o corpo inteiro para a luz. Desde então, passo a maior parte do meu tempo estudando, construindo com bases sólidas a minha carreira acadêmica. As influências platônicas que tenho são estritamente metodológicas. Não sou platônico, nem defendo sua doutrina filosófica. Mas a maneira pela qual ele lida com a filosofia, sua estrutura de linguagem e de escrita, assim como seu vocabulário filosófico e sua constante tentativa de esclarecer de forma distinta o pensamento, certamente influenciam a minha maneira de lidar com a filosofia e com a escrita. Sou um garoto extremamente metódico e sistemático. Normalmente não cometo loucuras e não dou passos mais largos que as minhas são capazes de dar. Acredito que as únicas loucuras que fiz foram por amor, mas isso não tem nada a ver com Platão, muito menos com a minha vida acadêmica.


☞ O André revelou-me que adora estudar. Que faz disso o seu hobby. E também me confessou que já participou em diversas palestras pelo mundo e que, neste ano de 2016, irá assistir a umas quantas sobre Platão aqui na Europa. Sente-se entusiasmado por poder... 'ampliar' de alguma forma os seus conhecimentos sobre o Platão? Sente que isto poderá mudar de alguma forma a sua vida?

Acredito que esse é o único jeito na filosofia. As aulas são muito pobres. Em qualquer universidade, elas auxiliam ao estudante desenvolver as ferramentas necessárias para lidar com textos. Elas formam bons historiadores da filosofia. Entretanto, para uma carreira acadêmica sólida, para tornar-se filósofo, há a necessidade de estar em contato com pesquisadores, presenciar debates e discussões, dar a cara à tapa. Essa é a hora de errar, de dar e tomar rasteiras, de ser refutado, de exigir e fornecer razões e fundamentos, de ganhar malícia e experiência. Isso é possível somente com congressos, colóquios, discussões e grupos de estudo. Além disso, viagens são sempre oportunidades muito enriquecedoras para o crescimento espiritual e cultural. Sinto que o estudante só tem a ganhar tanto em maturidade quanto em experiências.

Isso certamente mudará a minha vida. Esse ano de 2016 será um divisor de águas. Eu sou muito grato pelas oportunidades que meu orientador e meus pais me dão. Por isso sempre sou ávido para retribuir com muito esforço e muita dedicação.




Considera que o ensino disponibilizado pelo governo brasileiro é suficiente? Alguma vez se sentiu de alguma forma prejudicado nos seus estudos filosóficos pela forma como o seu país gere as coisas?


O ensino no Brasil é em geral muito ruim. Entretanto, em filosofia, no que diz respeito à pesquisa e à produção, temos um ensino muito forte, com bons investimentos, sem dever muito a ninguém. Apesar disso, esse não é o problema central. A lógica de nosso modo de produção global preza a instrumentalização do saber: somente é bom se for útil para algo. A filosofia acadêmica não serve para nada, no sentido de não ter utilidade prática nenhuma. Assim, a lógica da produtividade, do fazer mais em menos tempo, e etc., são fundamentalmente prejudiciais ao estudo e ensino de filosofia, que têm um tempo próprio, que necessitam de vagar, de tempo para "digerir" o conteúdo. Tem um "tempo lógico" peculiar. Infelizmente, esse é o panorama do ensino de filosofia em todo o mundo, na medida em que a lógica produtivista de mercado é global. Mas isso seria assunto para um outro momento.


O André já pensou em mudar-se para o estrangeiro?

Sim. Na verdade, fui convidado para estudar na Universitat Autonoma de Barcelona. No ano passado, em um congresso na minha universidade, conheci Victor Gomez Pin e Albert Ariso, dois excelentes filósofos do departamento de ontologia da Universidade de Barcelona. Está nos meus planos prosseguir os meus estudos e as minhas pesquisas na Espanha. Espero poder ter essa experiência de viver sozinho em outro país, como crescimento pessoal e acadêmico.




Agora, abandonando o tema da filosofia, fale-me do André. Não do filósofo, não do escritor, não do historiador, nem do homem. Fale-me do André menino. Da criança que foi. Da sua infância, dos seus sonhos de criança. Daquilo que fez de si o que é hoje. Abra o coração aos nossos leitores e partilhe um pouco de si.

Quando criança sonhava em ser um cavaleiro, ou um mago poderoso, ou um super-herói. Sempre fui muito agitado e gostava de fingir de poderes mágicos e fantásticos. Depois, na adolescência, passei a maior parte do tempo imerso em fantasia nas mais variadas formas de linguagem: jogos, games, livros, e etc. Nunca imaginei que seria um filósofo ou um historiador, mas acredito que me tornar quem eu sou foi resultado de um processo que está longe de terminar, no qual ainda vou me perder e me reconstituir diversas vezes! É a experiência, inevitável de ser constantemente reconstruída. Essa é a vida: um constante vir-a-ser, um devir existencial.




Muito obrigada pelo seu tempo e disponibilidade, André. Foi um imenso prazer entrevistá-lo para o JEdLP. Desejo-lhe todo o sucesso do mundo na sua carreira como filósofo!


© 2016, Raquel C. Vicente e JEdLP

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