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✍Entrevista a Miguel Agramonte: Escritor Português



Hoje, o JEdLP apresenta uma entrevista feita ao autor português Miguel Agramonte cuja obra mais recente, um romance gay, se intitula 'Quando Tu Nos Mentes'.

Nesta entrevista, o autor falou-nos da sua obra, que será publicada pela Editora Capital Books, abordou o assunto homossexualidade (como não poderia deixar de ser) e ainda nos falou um pouco da sua infância. 


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☞ Boa tarde, caro Miguel. Esta já não é a primeira vez que falamos sobre o seu livro, no entanto, gostaria que partilhasse aquilo que me disse com as pessoas que acompanham o JEdLP. Então, conte-me novamente, do que trata a sua obra? E, se não se importar, mate-me a curiosidade: faz da escrita o seu emprego ou tem outro?


Quando comecei a pensar no ‘Quando tu nos mentes’, ficou claro que seria um livro de temática homossexual, logo à partida, diferente, tanto na forma de escrever, como no tema a abordar. Costumo dizer, é um livro “mental”, ou seja, é uma história que vai sendo transmitida ao leitor através do ponto de vista de cada uma das personagens. Por outras palavras, formatada pela visão de cada um dos intervenientes. Mas também pretendi contar uma história passada num mundo que toca, direta ou indiretamente, a muita gente que não encontra identificação na maioria dos livros publicados. Ao longo da trama misturam-se temas como a traição, o prazer da “caça” ou o sexo pelo sexo (com ou sem amor) – haverá sexo sem amor? E amor sem sexo? É por esses e outros temas que as personagens vão avançando ao longo das páginas, sempre coerentes com os seus perfis psicológicos, dos quais não se pode dissociar o seu passado, por exemplo. Escrevi o 'Quando tu nos mentes' de uma forma propositadamente crua, fria, por vezes violenta, mas onde também é possível encontrar momentos de ternura e carinho. Contudo, sempre sem ter medo das palavras.

Já respondendo à segunda parte da questão, faço da escrita o meu passatempo. Aliás, sempre foi assim desde que me recordo, incluindo as redações na escola primária que, para mim, eram um prazer. Portanto, a escrita não é o meu emprego, mas sim algo a que recorro para me distrair ou, mesmo, combater o stress. Afinal, permite-me viajar pelas histórias e personagens que eu mesmo crio. Acredito que dificilmente poderia ser o meu emprego. Porque não consigo decidir quando vou ter a inspiração certa ou a criatividade necessária para escrever o que quer que seja. Não tenho um interruptor ON / OFF para a inspiração, que ligo ou desligo quando me apetece ou necessito. Simplesmente acontece, quando acontece, ou quando me apetece. Se fosse um "emprego", passaria a ser uma obrigação. E, nesse caso, acho que tudo seria muito mais difícil (se calhar, até a própria imaginação e/ou criatividade seriam afetadas). Mas não digo que não gostasse de morar num local isolado (até sei qual poderia ser), onde apenas me dedicasse à escrita. Só que, pelo que disse anteriormente, creio ser mais uma utopia minha.




☞ O Miguel descreve a obra ‘Quando Tu Nos Mentes’ como um livro gay com uma narrativa crua e personagens realistas. Diga-me, iremos realmente encontrar indivíduos reais? De carne e osso? 



No livro 'Quando tu nos mentes', os indivíduos são bem reais, de "carne e osso", pertencentes a um mundo existente, bem real. Mas a maior parte da nossa vida acontece ao redor de estereótipos (ou lugares comuns). E a maioria de nós sente-se confortável com isso, porque, afinal, é aquilo que nos dá a segurança de vivermos o que conhecemos. Porém, o que nos marca são precisamente os momentos que fogem desses lugares comuns. Portanto, na minha opinião, uma história tem que ter lugares comuns, para que as pessoas se identifiquem com ela (algo fundamental para mim), mas também precisa de fugir destes, de forma a não ser enfadonha e trazer-lhe algum interesse. Afinal, é tal e qual o que acontece no nosso dia-a-dia. 




☞ Quando estivemos à conversa, disse-me que a sua obra é mental e diferente. Que estava moldada segundo o ponto de vista de cada personagem e que iria abordar diversos assuntos numa relação. Explique-me até que ponto é a sua história diferente, quando comparada a outra, e como iremos encontrar na sua narrativa os pontos de vista dos personagens. 



Esta foi uma história que pretendi que se desenrolasse na cabeça das personagens, à luz daquilo que vêem e pensam. Portanto, a narrativa é feita por elas. Isso faz com que a história seja transmitida ao leitor de uma forma diferente do habitual, facilitando a apresentação dos pontos de vista de cada uma das personagens. Afinal, são elas que vão contando a história. 



Mas também pretendi contar uma história passada num mundo que toca, direta ou indiretamente, a muita gente que não encontra identificação na maioria dos livros publicados.

☞ É-me claro que a sua obra abordará muitas coisas sobre a homossexualidade. Considera que a história que nos conta no livro ‘Quando Tu Nos Mentes’ poderá ajudar as muitas pessoas que são vítimas de homofobia e discriminação social? Acha que poderá de alguma forma ajudar aqueles que são oprimidos por indivíduos homofóbicos a sublevarem-se e a assumirem-se como são? Ou seja, a serem felizes? 


Acho que qualquer coisa que se faça e que apresente ao mundo o mundo LGBT (literatura, restaurantes, música, festivais, pintura, escultura, blogs e vlogs, programas de TV, desfiles, teatro, coros gay, cinema, bares, etc.) ajuda a aumentar a ainda tão necessária visibilidade da chamada comunidade gay e respetiva realidade. Com tudo isso, estar-se-á a trazer para a luz do dia temas e áreas tantas vezes considerados como pertencentes ao submundo e a transformá-los em algo normal, no sentido de ser algo do quotidiano. Afinal, quando algo passa a aparecer uma e outra vez (apesar de poder chocar no início), depois passa a ser encarado como normal e já ninguém liga, por ter sido integrado na cultura da sociedade. O mundo está cheio destes exemplos, não apenas relacionados com o mundo LGBT. É nesse sentido que acho que ajuda, mas não ao ponto de os "oprimidos se sublevarem". Essa é outra questão que passa, acima de tudo, por questões das sociedades (estes são processos mais ou menos lentos, em função da comunidade onde as pessoas se integram) e dos indivíduos - isto é, de cada um de nós. Ajuda, mas o passo final é sempre individual (seja a pessoa homossexual ou heterossexual - para o primeiro ser aceite, é preciso que o segundo esteja disposto a aceitar. E não usei o termo "tolerar" de propósito). Quanto a serem felizes... aí ainda se misturam outras questões. Possivelmente poderá ajudará as pessoas a serem mais felizes.




☞ Como é que o Miguel Agramonte se descreveria enquanto escritor? Se tivesse de se descrever num livro, como o faria?



Uma pessoa que gosta de observar o mundo (os seus povos, cada um com as suas formas sempre diferentes de ser, de estar, de pensar, de agir - nem melhores, nem piores, simplesmente diferentes) e escrever sobre as coincidências que nele acontecem, constantemente. As pessoas são interessantíssimas, o mundo é muito vasto e as histórias são infinitas. E as coincidências são transversais a tudo isso. O Miguel Agramonte adora escrever sobre tudo isso e acaba, sempre, por sentir que a realidade bate aos pontos a ficção...




☞ Contou-me que nasceu em Moçambique, que viveu durante muitos anos em Portugal, mas que se encontra actualmente no Brasil. O que é que o levou a mudar-se para esse belo país tropical? Foi por obrigação ou por puro prazer? 



Nasci em Moçambique (na altura ainda uma colónia portuguesa), morei em Portugal bastantes e anos e, agora, faço a minha vida no Brasil, país que adoro. Este meu percurso pessoal dá-me um prazer enorme ao nível da lusofonia, por exemplo, porque me tem vindo a permitir usufruir de muitos sabores que este nosso idioma tão rico nos proporciona. O que me levou a ir para o Brasil foi a minha profissão, mas foi uma opção minha. Portanto, diria que foi por obrigação profissional (de minha livre vontade) e prazer pessoal. Ou, por outras palavras, juntei o útil ao agradável. Se aliar isso ao meu gosto por viajar, esta oportunidade profissional tem-me permitido conhecer melhor o Brasil (mas, também, outros países da América do Sul).




☞ Agora… para concluirmos esta modesta entrevista… fale-me do Miguel. Não do homem, não do escritor. Fale-me do menino. Do menino que foi em tempos. Fale-me da sua infância e do seu percurso até aos dias de hoje. Partilhe comigo as suas memórias e a sua história. 



Como disse anteriormente, sempre gostei de escrever. Comecei por contar histórias, que inventava à medida que as ia narrando, aos meus irmãos. Imagino que a escrita tenha sido uma evolução natural. E fui passando por diversas fases, desde escrever pequenos contos, a experiências na banda desenhada ou, já na adolescência, argumentos para aventuras dos chamados "role playing games", onde pude explorar a escrita da chamada literatura fantástica. Também nesse período fui desenvolvendo o meu amor pela ficção científica, de onde destaco nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke ou Carl Sagan. Embora goste bastante de ler, nunca fui de escrever poesia. Apesar de, por vezes, escrever de forma poética. Livros, enquanto estruturados como tal, só comecei a escrever bastante mas tarde. Contudo, ainda hoje mantenho o hábito de ir escrevendo pequenos textos, muitas vezes anotações ficcionadas de uma ou outra vivência com um significado especial. As viagens físicas também têm sido uma constante na minha vida, desde muito cedo, mesmo antes de ter um ano de idade. Portanto, talvez elas me tenham permitido alargar horizontes, sonhar, imaginar. Lembro-me de contar aos meus colegas da escola primária algumas experiências dessas viagens. Recordo-me de algumas explorações por África, acompanhando o meu pai na sua profissão. Por isso, e talvez pela forma como tenho vivido a vida, histórias não me têm faltado. Reais e imaginárias (algumas das quais, quem sabe, um dia serão passadas para papel). Certa vez, um amigo disse-me que sou um homem de histórias. Talvez. Imagino que, quando estou presente, os meus amigos sejam umas tristes vítimas das minhas histórias... Por isso vou abster-me de partilhar muitas mais memórias ou histórias: é menos maçador contá-las naqueles momentos insubstituíveis de convívio pessoal.




☞ Obrigada pelo seu tempo! Não tenho palavras suficientes para agradecer a sua amabilidade! E aproveito para lhe dar também os parabéns pela escrita fantástica! Votos de muito sucesso! 



Eu é que agradeço a oportunidade dada e os seus elogios. Desejo o melhor para o fórum JEdLP, porque considero um projeto muitíssimo interessante, que faz falta na comunidade de escritores e leitores de língua portuguesa e com um enorme potencial de sucesso.


© 2016, Raquel C. Vicente e JEdLP

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