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✍Cátia Cardoso: Crianças, Alunos, Professores e Arte




Embora tenha sido o lugar onde aprendi a escrever a maior parte das palavras e onde aprendi como articular frases e ideias, a escola não tem o melhor funcionamento. Nem toda a gente tem facilidade em expor para o papel aquilo que acha/pensa/quer dizer. 

É certo que se deve espevitar a escrita das crianças, no entanto, fornecer-lhes isso em forma de obrigação não é o mais correto. 

É difícil de entender a necessidade de professores de ensino primário exigirem aos seus alunos - fala-se, portanto, de crianças entre os 6 e os 9 anos de idade - que escrevam um poema. É estranho que isto aconteça. Primeiramente, um poema não é algo que se possa exigir, não é algo que qualquer pessoa, em qualquer altura o consiga produzir. 

Para escrever um poema, por mais simples que seja, é precisa inspiração, e é também preciso querer e gostar de poesia. E isso não se consegue pela força, pela autoridade. É bem mais fácil mostrar, primeiro, às crianças o quão mágica é a poesia e, depois, deixar que o seu gosto por, surja naturalmente. 

Numa sociedade em que os artistas são tão vistos como inúteis, encontram-se assim escolas em que os alunos são obrigados a escrever. O ilógico é que se um dia esses mesmos alunos forem escritores nem os professores os vão ler. Afinal de contas, para que servem os escritores? Esses seres que passam o dia sentados numa cadeira em frente a um computador, muitas vezes, sem horários, dormem o dia todo e passam a noite acordados, que falta de equilíbrio! O que têm para dar à humanidade essas pessoas tão mesquinhas e fúteis? Se o tempo que passam a escrever aquelas bodegas fosse passado a estudar medicina ou engenharia, aí sim, seriam todos bem-vindos e todos precisos...

Mas nem esses seres conseguem escrever facilmente por imposição. A escrita é algo demasiado especial para surgir só porque sim. E a poesia é mágica. Não é legítimo que se force um poema. Os poemas - mesmo os mais rascos - são obras de arte, e nenhum artista o é porque decidiu sê-lo, de um dia para o outro, mas sim porque nasceu com os seus talentos que aperfeiçoa a cada dia que passa e aos quais junta as pitadas necessárias de inspiração. Sendo que a inspiração é um não sei quê, que surge não se sabe de onde nem como, mas sabe-se porquê: para não permitir que a arte morra. 

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