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✍ Perda de Memória - Capítulo 56 da obra 'Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro'




A Perda de Memória é uma das muitas doenças do foro psicológico e a obra 'Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro', da minha autoria (Patrícia Rebelo), explica-nos isso. É a minha experiência pessoal passada para o papel. 

Por essa razão, enquanto colunista do JEdLP encarregue pelo tema psicologia, decidi partilhar com todos vós o capítulo 56 da minha obra para vos elucidar sobre este problema do qual fui, e ainda sou, vítima.






Perder a memória é bem mais do que perder alguns momentos. É perder a nossa identidade, porque somos uma sequência de ações, pensamentos e atitudes. Se essa linha é interrompida, deixamos de saber quem somos. A nossa identidade define-nos e isso faz-nos entender porque é que agimos de determinada maneira em determinada situação. Perder a memória, faz com que percamos momentos que nos são essenciais. Sei que não consegues entender, mas faz-nos sentir perdidos. É como se conhecêssemos uma realidade diferente, pois algo nos foi tirado. Essa realidade, confrontada com a verdadeira realidade, ou seja a atual, torna-se um processo doloroso.

São várias as fases pelas quais se passam e garanto-te que nenhuma delas fica realmente bem resolvida. Primeiro vem a confusão. Não entender o que se passa à volta. Um pânico silencioso e profundo que nos faz querer gritar, mas não conseguimos. Uma bola de neve na absorção de informação, porque se tenta reter tudo, sem verdadeiramente se reter nada, pois não conseguimos entender o verdadeiro contexto da informação. Depois vem a negação. Tentar agir normalmente com aquilo que conhecemos e que para quem perde a memória é o dito normal. Ou seja, tenta-se agir ignorando a realidade e querendo fugir para o porto seguro que se conhece, mas que muitas vezes já não existe. Com esta fase chega a revolta. Não querer que nos expliquem as coisas. O não querer que saibam melhor do que nós o que havemos de fazer ou dizer. O não querer que todos esperem uma determinada reação.

Todos esperaram uma determinada atitude ou reação da minha parte e de preferência esperaram que eu agisse de acordo com o “normal” na cabeça de cada um. Nada mais errado. A pressão exercida por todas as pessoas, só faziam com que a revolta aumentasse. Ninguém pode, nem deve esperar reações de outra pessoa e muito menos considerar que já passou tempo suficiente para a superação da perda de memória. Ninguém pode definir o tempo de assimilação de cada um, nem a vontade de reagir perante o problema. Sim, é um problema quer as pessoas querem. A perda de memória não afeta só a pessoa que a perde. Afeta todas as pessoas à volta e principalmente aquelas que estão em contacto direto. Se não existir compreensão e espaço, essas pessoas tornam-se um bloqueio à pessoa que perdeu a memória e a maneira mais fácil de reagir é colidindo. A partir daí vem o afastamento, o desviar caminho e o tomar de decisões. Depois disto, a pessoa caí em si e chega a insegurança, o medo, a saudade e o “porquê de ser assim“. Chegam dias de agonia, de tristeza e depressão.

Essa é a fase seguinte. A depressão. Olhamos para tudo o que tínhamos e para o que temos e para o que nos disseram e nada faz sentido. A frustração apodera-se de nós e simplesmente deixamos de ter forças para reagir. É mais fácil deixar passar os dias, afastar pessoas e problemas e tentar voltar ao porto seguro, mesmo que já não exista. Porque é que é mais fácil? Porque supostamente, na nossa cabeça conhecemos o caminho. Não equacionamos que o tempo passou e que não estamos na realidade atual. Ganhamos medo de encarar essa realidade e ver o que sobra ou ver que não sobra nada. Perder a memória é perdermo-nos. É um pesadelo que se vive todos os dias, é a angústia de querer à força que, por um momento, a memória perdida volte. Perder a memória é perder parte de nós mesmos.

Sei que não entendes. Sei que não compreendes como não consegui simplesmente encaixar que o passado é o passado e o presente o presente e que não existe ligação entre ambos. Sei que não entendes que isto não é um simples botão que ligas e desligas quando queres e que a compreensão e o lado racional têm de existir sempre. Sei que não consegues aceitar como é que alguém entra numa montanha russa de emoções, sem saber lidar com tudo o que tem de absorver de informação. Sei que muito menos consegues perceber como é que alguém consegue expor o que sente, sem medos nem receios. É a diferença entre nós… Sei que não irás entender. Nem ler. Eu sei. Mas hoje escrevo-te um dos textos mais intimistas para mim. No fundo, não é para ti. É para mim. De mim para mim. De mim para mim mesma, para saber lidar com isto.


in "Cap. 56 - Um dia disseste que eu devia escrever um livro 
- Patrícia Rebelo, editora Capital Books"

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