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✍Entrevista a Gonçalo Martins: CEO e Fundador da Chiado Books




Hoje o JEdLP traz a todos os seus leitores uma entrevista com um dos maiores visionários do mercado literário lusófono: Gonçalo Martins. 

CEO e Fundador da Chiado Books, o empresário tem revolucionado e implementado a democracia no excessivamente conservador mundo da literatura, onde há bem poucos anos atrás publicar era algo exclusivo de um determinado grupo de pessoas. E foi devido à sua enorme contribuição para a promoção da literatura lusófona que o JEdLP o entrevistou não só para falar da Chiado, como também para ficar a saber um pouco mais sobre a sua pessoa e os seus planos para o futuro.

Homem de poucas palavras e bastante reservado, o empresário respondeu-nos a perguntas sobre temas controversos (tal como o do Acordo Ortográfico) e contou-nos como surgiu a ideia que deu origem ao gigante do mundo editorial.



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☞Boa tarde, Gonçalo. Antes de mais deixe-me que lhe diga que é uma enorme honra poder entrevistá-lo. O Gonçalo é o fundador e CEO da Chiado Books, o visionário que deu origem a este gigante de grande sucesso. No entanto, esta é uma descrição muito vaga sobre a sua pessoa. Por essa razão, peço-lhe que se apresente aos leitores do JEdLP. 

Boa tarde, Raquel. É um prazer colaborar com o JEDLP, um projecto inovador que vem dar espaço aos Autores da nossa Língua. 

Não é fácil falar de mim. Diria que sou uma pessoa simples que gosta de livros.



☞Possivelmente, o mais correcto seria avançarmos agora para as perguntas sobre a Chiado Books e centrarmo-nos apenas nisso. Porém, não o convidámos para falar somente da Chiado. Por essa razão, permita-me retroceder no tempo. Quando a sua empresa era apenas uma ideia (ou se calhar até nem isso era na altura), o Gonçalo dedicava-se à escrita e aos estudos. Segundo me consta, escrevia predominantemente poesia. Conte-nos, o que é que despertou a sua paixão pelas letras e quais foram as suas maiores inspirações? 

Não sei exatamente o que despertou em mim o apelo da escrita. A leitura e a escrita fizeram parte da minha vida desde que me lembro. Inspirações sempre foram inúmeras, mas sempre vi em Fernando Pessoa uma referência.



☞Actualmente… continua a escrever? Tem pretensões de retomar a carreira literária no futuro? 

No âmbito da Literatura, a minha actividade centra-se actualmente em trabalhar para que a Chiado e os seus Autores cresçam. 

Não tenho de momento qualquer pretensão relativamente a uma carreira literária minha.



☞O Gonçalo daquela altura seria capaz de acreditar que um dia fundaria uma das editoras mais bem-sucedidas do país? 

Tinha plena noção do enorme espaço que existia por ocupar no panorama editorial em Língua Portuguesa e total confiança de que saberia fazer mais e melhor. O resto, foi uma história que se construiu passo a passo.



☞Houve um poeta que disse: 



«(…) Esta noite sonhei com um homem que
dizia que só os pobres e tristes
são felizes. 

Sou feliz? Diz-me louco dos sonhos! Sou? 

Gostava de sentir que estou a caminho de alguma coisa…
Como se estivesse a escrever um livro
em que no final tudo revela o seu sentido.
Tudo acaba bem. 

Mas a rotação da Terra é demasiado exacta.
E eu não (…)»


O que diria a este poeta?

Diria que não parasse de lutar pelas coisas em que acredita. Se assim fizesse tudo revelaria certamente o seu sentido.



☞Conte-nos… qual foi a razão que o levou a criar a Chiado Books e como surgiu a ideia? 

Como referi anteriormente era evidente a enorme lacuna que um panorama editorial muito conservador ameaçava tornar permanente. O acesso à publicação era reservado a uma pequena elite e concedido por uma mão cheia de guardiões do templo, pouco sensíveis ao talento emergente que eu testemunhava diariamente num sem número de Autores não publicados. Era urgente o surgimento de uma Editora capaz de apostar sem preconceitos na criação do espaço que permitisse a todos esses talentos o acesso à publicação. A Chiado foi essa visão.



☞Regressando novamente ao presente, como é que descreveria o mercado literário português? Considera que houve um avanço em termos de mentalidades? 

Houve um avanço, sim. Basta ver o número de Autores publicados, a diversidade de géneros literários, de temas e até mesmo a quantidade de blogues literários, páginas em redes sociais dedicadas ao livro e uma relação muito mais próxima e direta entre Autores e Leitores.

Não tenho dúvidas de que temos hoje um mercado editorial mais democrático e virado para o nosso tempo.



☞Agora, um tema que dá origem a discussões acesas: O que acha do Acordo Ortográfico? 

Considero desnecessário, mas não perco tempo com isso. Na Chiado, a liberdade é total. Esta é uma decisão que deixamos sempre para o Autor. Se o pretendido era aproximar os vários países de Língua Portuguesa, um Acordo Lusófono que permitisse que o envio de um livro entre estes territórios custasse 1€ teria efeitos práticos bem mais benéficos. 



☞A Chiado Books já se expandiu bastante a nível internacional e tem conquistado milhares de escritores. O que é que a levou a ser este enorme sucesso? Quais são as características que a Chiado possui que a tornam na editora de eleição de muitos escritores portugueses? 

Editar livros não é o nosso trabalho, é a nossa paixão! Foi assim desde o primeiro dia. Temos crescido muito e todo esse crescimento tem servido, acima de tudo, para fazer crescer os nossos Autores. Crescemos com eles e para eles. A cada novo ano, qualquer Autor publicado pela Chiado sente claramente esse crescimento e a criação de melhores condições para o sucesso das suas obras. 




☞Como é que a Chiado Books tem sido recebida em países como Angola e Cabo Verde? 

Temos crescido em todos os países da lusofonia. Angola e Cabo Verde não são excepção. O nosso território é a Língua Portuguesa, mais do que este ou aquele país em particular. A visão da Chiado é a de uma editora global, que cruze todos os territórios da nossa Língua. São cada vez mais os casos em que um Autor angolano da Chiado lança o seu livro em Lisboa ou tem um merecido destaque numa grande livraria brasileira. Isto acontece, em primeiro lugar, por causa do enorme talento que encontramos num sem número de Autores emergentes nestes países; e, sem falsas modéstias, porque existe hoje uma editora forte que assume um catálogo único, disponível para todos estes países em simultâneo, sem privilégios nem preconceitos comerciais.



☞Actualmente, qual é o seu maior objectivo no que diz respeito à Chiado? 

Crescer.



☞Encontram-se cada vez mais pela internet jovens autores brasileiros que escolheram a Chiado Books para publicarem os seus livros. Descreveria a Chiado Books no Brasil como um sucesso? Acredita que continuará a crescer cada vez mais nesse magnífico país? 

Sem dúvida! O Brasil é tão imenso em território como em correntes de escrita e talento literário. Embora a Chiado seja uma única e mesma editora para todos os países de Língua Portuguesa, o Brasil tem já um peso naturalmente importante no nosso trabalho. Abrimos em 2014 o nosso escritório de São Paulo, na Avenida Paulista, onde trabalha uma equipa dedicada em exclusivo ao mercado brasileiro e temos sido muito bem recebidos por todos: Autores, Livreiros e Leitores. Continuamos a crescer imenso e o céu é o limite! 



☞A Editora tem tido milhares de críticas positivas. Mas as negativas também vão surgindo. Há quem descreva a Chiado como uma «vanity press», quem a critique por «apostar na quantidade e não na qualidade». O que diria a todas essas pessoas? 

Não diria nada. Todos têm direito à sua opinião e todas as opiniões são legítimas e merecedoras de respeito. Maior visibilidade traz sempre, naturalmente, mais críticas tanto positivas ou menos positivas.

Compreendo bem que para algumas pessoas seja ainda difícil perceber a dimensão do trabalho da Chiado, já que está completamente desenquadrado do que durante décadas foram as práticas conservadoras do mercado editorial.

Foco-me essencialmente nos objectivos da editora e dos Autores do que nas críticas, positivas ou negativas.

Se queremos fazer algo verdadeiramente inovador, não devemos entusiasmarmo-nos demasiado com as críticas positivas nem deixar que nos afectem as críticas negativas. Devemos apenas focar no próximo passo.



☞A Eco-Chiado: algo que desperta a atenção de qualquer um. Uma iniciativa que se compromete a «desenvolver e implementar continuamente medidas de conservação dos recursos naturais, de modo a reduzir o impacto ambiental da sua actividade». Considera que essa é uma das melhores qualidades da editora? 

Sem dúvida! A Chiado é uma editora voltada para o seu tempo e no nosso tempo não é possível conceber qualquer actividade seja ela cultural ou económica que não seja orientada por princípios ecológicos sérios e muito objectivos. 



☞Agora, deixando a Chiado de lado, fale-nos da Lux & Lust. O que o levou a aventurar-se no mercado imobiliário? 

Gosto de novos desafios. O sector apresentava perspectivas interessantes e entendemos que tínhamos muitas mais valias no grupo, nomeadamente ao nível da comunicação, que poderíamos utilizar nesta abertura do espectro empresarial. 



☞Considera que este seu novo investimento poderá ser um sucesso tal como o da editora? 

Neste momento consideramos já a Lux & Lust um projecto vencedor. Penso que o sucesso da marca vai ser cada vez maior, alicerçando o nosso percurso em muito trabalho e dedicação.



☞Para além da Chiado Books e da Lux & Lust tem algum projecto para o futuro? 

Todos os dias tenho novas ideias. No entanto, estou neste momento focado a 120% no crescimento multinacional destes dois projectos.



☞Enquanto leitor, conte-me, dos escritores consagrados, quais sãos os seus preferidos? E dos mais novos, quais recomendaria aos leitores do JEdLP? 

É sempre difícil fazer este tipo de escolhas. Descubro frequentemente um novo Autor que me entusiasma ou redescubro uma obra de referência. Sou um dos melhores clientes da minha própria livraria, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Leio muito e muita coisa em simultâneo. Comecei ontem a ler “O Senado” do Luís Corredoura, estou a reler o “Contagem Descrente” do John Wolf e voltei a abrir com o mesmo prazer de há alguns anos “O Velho e o Mar”, de Hemingway.



☞Muito obrigada por ter aceitado dar esta entrevista ao JEdLP, Gonçalo! Foi uma honra imensa! Desejo-lhe que continue a ter muito sucesso e dou-lhe os meus sinceros parabéns pela Chiado Books! 

O prazer foi todo meu. Desejo o maior sucesso para o vosso projecto!


© 2016, Raquel C. Vicente e JEdLP

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