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✍Crónica | Je Suis Orlando: Cinquenta vidas entre Ódio ou Amor?



Enquanto existir ódio ao amor, inferioridade de géneros, discriminação social, fanatismo religioso, distinção pela cor de pele, vai haver sempre sangue espalhado por todo o lado!

Infelizmente e tristemente dia 12 de Junho ficou marcado nos Estados Unidos da América como um dos capítulos mais sombrios da história. Um homem de 29 anos abriu fogo em uma casa nocturna popular entre a comunidade LGBT em Orlando, no estado da Flórida, matando pelo menos 50 pessoas e ferindo 53. 

Segundo o pai do atacante, o ataque não foi por motivos de religião, sendo que este era um cidadão norte-americano de pais afegãos com possível ligação ao jihadismo, mas sim porque o filho ficou revoltado numa viagem feita dois meses antes a Miami, quando viu dois homens aos beijos. Terá sido esse o motivo principal do atacante segundo o seu pai, homofobia e não religião. Este atendado foi considerado o pior atentado com armas de fogo de calibre militar da história dos EUA. 

A notícia rápido se espalhou e correu mundo como seria de esperar, foram muitas as mensagens de apoio e de solidariedade para com os familiares das vítimas, para com o país. Porém não surgiram só mensagens de apoio às famílias e aos Estados Unidos por estarem a viver aquele dia tão negro. Juntamente com as mensagens de apoio vieram também comentários e piadas em relação ao ataque que se espelharam pelas redes sociais à velocidade da luz e, lamentavelmente, Portugal não foi excepção à regra. Um tal de Rui Sinel de Cordes, que sinceramente não sei sequer quem é, mas o mesmo afirma-se como humorista, elaborou o seguinte comentário sobre o atentado: 

«Que este atentado seja uma lição para todos os homossexuais. Quando vos perguntam se vos podem abrir um buraco novo, nem sempre devem responder sim.» 

Pergunto-me eu se este senhor tem noção do que disse. Será que sabe o que é amor? Seja ele da forma que for, será que sabe o que é esse sentimento? 

Depois de publicada na sua página do Facebook, as críticas ao humorista e à sua piada foram imediatas e aquilo que seria de esperar; não foram as melhores. Piada, que de piada nada teve, mas sim um comentário triste e infeliz sobre uma tragédia que tirou 50 vidas a 50 pessoas inocentes que nada fizeram para merecer um fim tão trágico como o que tiveram. Pessoas tão normais como eu, tão normais como esse senhor. Assim como a mim me deu volta ao estômago, me revoltou, me deixou enojado, deixou também outros tantos; o que obrigou o humorista eliminar a publicação da sua página pessoal. 

Qual é o mal do amor, afinal? O que tem em ser diferente? Rui Sinel de Cordes não foi o único que infelizmente perdeu uma valiosa oportunidade para estar calado. João Malheiro, antigo director de comunicação do Benfica, numa tertúlia do programa Flash Vidas ( CMTV), deu o seu ponto de vista sobre o atentado e proferiu a triste frase:

«Ser homossexual faz mal à saúde»

 Acrescentado que,… 

«Só há cerca de 10 ou 15 anos a Organização Mundial de Saúde entendeu a homossexualidade como não doença, até contra a minha opinião. Posso entender, como heterossexual que sou, que tal como um gordo lhe faz mal à saúde ser muito gordo – já um anão, coitado, não tem culpa de ser pequenino – também faz mal à saúde ser homossexual, qual é o problema?» 

Salientando depois…

«(...) é como fumar, só fuma quem quer, só bebe quem quer.»

Pois, mas ser homossexual não é para quem quer, não se escolhe, não é uma doença, nem opção, mas sim uma condição, já se nasce assim e tem de se aprender a viver com ela para não se deixarem afectar mais tarde com comentários deste género; de gente ignorante como a que referi acima. 

Como é que um canal de televisão deu tempo de antena a este pobre senhor? Sim, de espírito é bastante pobre e podre, tal como a maior parte da sociedade que julga sem se olhar primeiro ao espelho. Lembrem-se, aconteceu nos EUA mas poderia ter acontecido cá. No nosso país. E poderia ter sido alguém da vossa família, e, caso assim fosse, tenho a certeza que não iriam tecer esse tipo de comentários. 

Antes de abrirem a boca para perderem a valiosa oportunidade de estarem calados lembrem-se, relembrem-se, anotem se assim o desejarem. 

Quem diz o que quer, ouve o que não quer!


© 2016, Fábio Pinto e JEdLP

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