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✍Crónica Social: Licenciei-me. E agora? | por Sofia Alves Cardoso


Passei metade da minha vida a pensar naquilo que gostaria de vir a ser. Passou-me pela cabeça a medicina dentária, mas imaginar-me todo o dia a ver bocas alheias deixava-me um pouco entediada. Depois lembrei-me que a área da psicologia seria ideal para mim, uma vez que eu própria não me entendia e, por isso, talvez a psicologia me ajudasse a ultrapassar este obstáculo ao mesmo tempo que ajudava outras pessoas. Mas não... Não era verdadeiramente aquilo que eu queria ser. Nunca me imaginei a fazer algo... normal. Sempre me imaginei numa profissão de alto risco, em que seria interesse de alguém que eu não estivesse a tratar de certo assunto. E eis que escolho a área da criminologia.

Sim, eu sei. Eu sei que muitos de vocês estão a perguntar-se se isto existe mesmo. Sim, existe. Eu frequentei durante 3 longos anos este curso superior que engloba imensas áreas para o estudo do crime. Licenciei-me logo à primeira e agora sou só mais uma nas estatísticas. Para além do mais, sou mais uma das que ouve constantemente das vozes sábias do povo de que sabia no que me ia meter e que deve ser extremamente frustrante não trabalhar na área. E eu questiono: será que seria menos frustrante enfiar-me em casa a chorar desesperadamente sem tentar ver outros caminhos? Para mim não. Eu não me sinto frustrada por não trabalhar na área e sinto que as pessoas ficam frustradas por não me sentir frustrada. Irónico, não? Normalmente defende-se que as pessoas devem ser independentes, mas no meu caso seria-me, alegadamente, mais benéfico ficar em casa à espera que o dinheiro nascesse nas árvores e que as contas se pagassem sozinhas.

Eu não me envergonho de não conseguir ser aquilo que desejo neste momento. Aliás, ninguém se deve envergonhar. E não importa se trabalha numa caixa de supermercado, numa indústria qualquer, se trata de idosos, ou se passeia o cão do vizinho. Não se acanhem de dizer que trabalham muitas vezes no duro para conseguir ter uma vida digna porque não é um emprego que diz que tipo de pessoa se é ou se vocês poderão vir a ser bem sucedidos no futuro ou não. O conhecimento adquirido está lá, ninguém o extrai miraculosamente, por isso, mesmo que não seja agora, esse mesmo conhecimento pode servir para o futuro. Podemos começar a nossa carreira profissional a limpar ruas, mas quem nos diz que daqui a uns anos não somos proprietários de uma empresa de sucesso ou até presidente da república? O único impedimento é o receio, aquele nervoso miudinho em arriscar. 

No entanto, acredito que um dia os meus esforços serão recompensados. Lentamente vão sendo. Não preciso de ganhar imenso dinheiro para perceber que a minha área, contrariamente ao que dizem, afinal é necessária para alguma coisa. E se nunca conseguir arranjar emprego na minha área não me vou arrepender de ter arriscado numa coisa completamente diferente.

Se não formos nós a traçar a nossa vida, quem será?



© 2016, Sofia Alves Cardoso e JEdLP

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