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✍Polémicas no Mundo da Tradução Literária – Literalmente livre ou livremente literal? | por Leonardo Lopes da Silva



Polémicas no mundo da tradução literária – literalmente livre ou livremente literal?


Uma das questões que mais me afligem enquanto escritor, e que frequentemente tenho de responder, é a torturante “quando você irá traduzir os seus escritos em português para o inglês (ou o espanhol, ou o russo), e vice-versa?”. Torturante porque não penso no quando, mas como. Como poder expressar algo que foi expresso originalmente com uma concatenação de palavras, sons e ideias próprias, com significados que fazem sentido apenas na língua original usada para escrever um poema, um conto, ou um romance? Não seria um “pecado” deixar que a intenção da escrita e a riqueza de polissemias (múltiplos significados, tão caros a mim e a muitos outros escritores), assonâncias, sinestesias, sejam perdidas em tradução, e sejam relegadas a um plano inferior num texto escrito numa língua distante da original. Se visto unicamente do ponto de vista do escritor, neste caso eu, creio que há uma crise de confiança no profissional que irá realizar a tradução de algo tão caro para mim – como iria ele ou ela capturar o mesmo tom, a mesma atmosfera que me esforcei tanto para gerar?


No meio académico da tradução, entretanto, não são as preocupações íntimas e subjetivas do autor as principais fontes de discussão e debate. A grosso modo, pode-se dizer que historicamente há dois campos opostos, que defendem dois tipos distintos de se fazer uma tradução – os literalistas e os tradutores livres. O que constitui exatamente o estilo dessas duas escolas ?


A tradução literal tenta ser o mais fiel possível a escrita original, feita na língua de origem da obra. Na sua forma mais rudimentar e primária, ela engloba a totalidade da obra, incluindo os seus elementos gramáticos, semânticos e pragmáticos, a detrimento da língua alvo, a língua na qual a obra está a ser traduzida, pois muitas vezes a mensagem traduzida pode perder o seu sentido, caso não haja semelhanças linguísticas e culturais entre as duas línguas utilizadas no processo de tradução. Levando-se em conta a expressão em inglês “to kill two birds with one stone”, literalmente dir-se-ia, “matar dois pássaros com uma pedra”, que claramente em português não é a mesma expressão compartilhada por falantes de língua portuguesa. O leitor mais astuto logo atentaria por uma leitura mais profunda que o contexto indica a expressão correta em português seria “matar dois coelhos com uma cajadada só”, que significa fazer uso de uma ação que atende a dois propósitos distintos. Pode-se dizer que o tradutor teria “sorte” neste caso, pois ambas as línguas possuem expressões que se referem a situação em questão. Configura-se então o caso de “equivalência linguística”. Como lidar, entrementes, com situações onde não há equivalência de termos entre as línguas com as quais o tradutor está a lidar? Como traduzir, por exemplo, a palavra “Ilunga”, do dialeto Tshiluba falado no Congo, que significa, “uma pessoa disposta a perdoar um outro por qualquer ofensa pela primeira vez, que o tolera pela segunda vez, e que não perdoa pela terceira vez”? O tradutor literal necessita de engolir em seco, e enfrentar uma das muitas verdades que irão aparecer na sua carreira – no mundo real, não é possível realizar a tradução perfeita, e o bom senso deve prevalecer neste caso. Não é melhor manter a palavra “ilunga” no texto traduzido, cercado por elementos contextuais que ajudem a passar o significado da mesma, ou mesmo informar o seu significado verborrágico numa nota do tradutor localizada na barra inferior da página?

Há vantagens, contudo, no uso de uma tradução literal. Ela permite um vislumbre do imaginário pessoal do escritor e da língua que ele utilizava ou utiliza, e facilita a comunicação entre falantes de línguas diferentes, enriquecendo o seu repertório semântico. É no processo de tradução que ocorrem permutas linguísticas valiosas, onde aprende-se sobre a existência de novos signos, significantes e significados na acepção de Ferdinand de Saussure, sem os quais nunca seria possível falar de sushi, de pop art, de zeitgeist, além, é claro, de expressões individuais que atingem a universalidade, como o “ser ou não ser” de Shakespeare, o “Senhor é o meu Pastor” de Davi na Bíblia, o dura lex sed lex latino.

A tradução livre, apesar da aparente leniência que o seu termo carrega, apregoa a independência – relativa – do texto original, tendo como objetivo a criação de um texto que seja acessível ao leitor final, valendo-se de elementos pragmáticos compartilhados por leitores da língua-alvo. Segundo Blum-Kulka (1981: 89-95), teórica contemporânea na área da tradução, a tradução torna-se uma tentativa de “re-executar atos locutórios e ilocutórios que deverão ter (isso, de fato, embora desejável, ocorre muito raramente) a mesma força ou o mesmo efeito perlocutório que terão na língua-alvo sobre os destinatários, como ocorreu na língua-fonte.” Isso facilita a compreensão e estabelece uma comunicação mais efetiva entre o escritor e o leitor, mesmo que tal ocorra a detrimento dos elementos estilísticos do texto original. A tradução destes versos de Shelley, feita de forma livre, pode atestar para isso:


Oh wild West Wind, thou breath of Autumn's being, Thou, from whose unseen presence the leaves dead Are driven, like ghosts from an enchanter fleeing
Ó Vento de Oeste Agreste, seu sopro do Ser de Outono,
Tu, que arrebatas as folhas defuntas com sua presença 
Invisível, como fantasmas em fuga de um feiticeiro,


Esta pobre tradução, por mim feita, não chega aos pés do original, mas tenta capturar a identidade visual e sonora do poema “Ode to the West Wind” na língua portuguesa, com a estruturação de assonâncias que nos passem a imagem de vento, de chiado, de tumulto, que surgem a partir da assonância original no poema, o “wild West Wind”, que evoca a imagem de turbilhão, de furacão. Foi necessário desfazer a voz passiva original em “the dead leaves are driven”, pois em Português é mais importante ressaltar a força do vento na voz ativa, “tu que arrebatas as folhas defuntas”. Por que “defuntas” e não “mortas”, que seria mais próxima ao inglês original? Porque a identidade e tradição poéticas do romantismo luso-brasileiro se utilizam de recursos estilísticos mais dramáticos, um pouco mais rebuscados. Em suma, valer-se da tradução livre neste contexto parece-me ser o método mais adequado, pois o objetivo maior, sob a minha ótica, é aproximar o leitor da escrita original de Shelley, valendo-se de elementos auditivos, visuais e imagísticos com que ele ou ela esteja familiarizado.

Há algumas limitações a realização de tradução livres, entretanto. A principal dificuldade encontra-se, como afirmei anteriormente, no fato da tradução livre tender a virar uma simples tentativa de recontar sob uma perspectiva puramente comunicativa a narrativa original – como fazer o texto compreensível para o leitor? como estabelecer uma comunicação entre o escritor, o meio escrito, e o leitor? – e deixa de lado outras preocupações que o tradutor deve levar em conta, como por exemplo, a intenção original do escritor, a construção linguística do texto e a sua (falta de) atualidade e o seu impacto, além, é claro, das preferências estéticas e pessoais do próprio tradutor, que tornam a tarefa de traduzir textos algo que tem muito pouco de objetivo. Outra problemática é, mais uma vez, é a noção de que há sempre uma equivalência de termos, ideias e construções sintático-semânticas entre os textos e as línguas nas quais são escritas. Conforme notamos anteriormente, ela nem sempre existe, se realmente existe de fato. Um texto escrito por um monge budista chinês no século XI, onde inexistem verbos de ligação ou uma estrutura sintática fixa e definida, torna-se muito difícil de montar na língua portuguesa se levamos em conta o dogma da total equivalência. Faz-se mister criar concessões, e acima de tudo, ser pragmático na diferenciação do que constitui a tradução e o processo da tradução.

Vladimir Ivir, teórico croata, afirma que “a equivalência é relativa, não absoluta, ela emerge do contexto e da situação definidos pelo inter-jogo de todos os fatores descritos aqui, e não possui existência fora desse contexto; em particular, [ ...] não é definido a priori por um algoritmo que converte as unidades da LF (língua-fonte) em unidades da LA (língua-alvo).” (1996:155). É importante compreender a concepção de tradução de texto como produto ou resultado (como textos técnicos e jornalísticos, onde a linguagem denotativa impera), que predispõe o tradutor a procurar e encontrar equivalências como regra maior de sua tradução, tornando-a na mera "transferência de material textual de uma língua-fonte (LF) para o material equivalente na língua-alvo (LA)” (1981:51-59). Desejo preconizar a necessidade do tradutor assumir algo além do papel de um jornalista ou de um técnico, mas sim alguém que deva visualizar o processo de tradução como um processo holístico, que engloba todas as funções de linguagem preconizadas por Roman Jakobson em seu livro “Linguística e Poética”, de 1960: a referencial (voltada para o contexto), emotiva (voltada para o emissor-falante-escritor), conativa (voltada para o receptor-ouvinte-leitor), fática (voltada para o meio onde a comunicação ocorre), metalinguística (voltada para o código-língua), e poética (focada na mensagem-poema-texto), e não apenas uma função a ocupar total primazia sobre as outras. O texto que está ser traduzido figurará em um livro, revista, ou blogue? Seria voltado para adolescentes com índices de atenção baixíssimo ou para velhinhas frequentadoras de parque? Necessita de total objetividade ou deve permitir duas ou mais interpretações, o que faz parte da definição mais básica do que constitui uma obra literária ou obra de arte? Deve fazer jus ao tom e ambiente construídos pelo escritor, ou é apenas um conjunto de instruções que devem ser propagados fielmente para que eu possa reiniciar o meu computador?

É uma tarefa às vezes inglória, hercúlea, irritante até, mas totalmente recompensadora, isolar-se de sua própria língua e cultura, e também das línguas e culturas com as quais se interage, para vislumbrar com sobriedade o fato de estamos a atravessar mundos distintos e valores relativos, sempre viajantes, nunca residentes. Essa é a sina do tradutor.




© 2016, Leonardo Lopes da Silva e JEdLP


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A TRADUÇÃO LITERÁRIA:UM CAMPO INTERDISCIPLINAR, por OLMI, Alba, in http://www.filologia.org.br/vicnlf/anais/caderno03-03.html

BLUM-KULKA, Shoshana. The study of translation in view of new developments in discourse analysis. The problem of indirect speech acts. Poetics Today, vol. 2, n..4, Summer/Autumn, p. 89-95, 1981.

IVIR, Vladimir. Formal correspondence vs. translation equivalence revisited. Poetics Today, vol. 2, n.4, p.51-59, 1981.

------. A case for linguistics in translation theory. Target, vol .8, n.1, p.149-157, 1996.


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