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✍A Rotina de Seis Grandes Escritores: King, White, Murakami, Hemingway, Miller e Vonnegut



Sempre tive curiosidade em saber como seria o dia-a-dia de um escritor profissional. Quantas horas escreve por dia? Que outras coisas faz durante o dia para além de escrever?

No fundo, o que eu queria era unicamente saber como organizar a minha própria vida de modo a ter hábitos de escrita e tornar-me num verdadeiro escritor. Foi por isso que no outro dia realizei uma pesquisa onde pude ler diversos artigos de inúmeros autores, onde estes falavam sobre as suas rotinas, sobre os seus hábitos diários. 

Resolvi, então, sintetizar a informação que recolhi para benefício pessoal e partilhá-la com todos os leitores, seguidores e excelentíssimos autores que seguem o JEdLP! 


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1. Stephen King

Como vimos num post anterior [Ver Aqui], Stephen King, “o mestre do Terror”, tem sempre um livro na mão. A sua rotina consiste em ler durante as refeições, não ver televisão e escrever 10 páginas por dia. 


2. E. B. White

E.B White, o criador de A Teia da Carlota e Stuart Little, em entrevista ao The Paris Review, declarou que o conceito de que para se poder escrever tem de ser ter as condições ideais é um mito. 

Segundo ele afirmou na altura, não consegue escutar música enquanto trabalha, no entanto, não se distrai com outras coisas. Nessa mesma entrevista, disse que escrevia muitas vezes na sala de estar e que este era o centro nevrálgico da sua casa. “Existe uma passagem para a adega, para a cozinha, para o armário onde está o telefone. Existe muito trânsito”. Mas ainda assim ele conseguia escrever apesar do “carnaval” que se gerava à sua volta. 

Revelou ainda que os membros da sua família nunca valorizavam o facto de ele estar a escrever. “Eles fazem o barulho que querem”, assegurou o escritor, “Se eu ficar farto, tenho sítios para ir. Um escritor que espera pelas condições ideias para poder trabalhar vai morrer sem ter posto uma palavra no papel”. 


3. Haruki Murakami

Haruki Murakami, o escritor japonês que escreveu inúmeras obras, de entre as quais se destaca 1Q84 (que eu li e recomendo), afirma que a repetição é a coisa mais importante na rotina de um escritor. 

Ele diz-nos “Quando estou no modo de escrita para um romance, eu levanto-me às 4 horas da madrugada e trabalho por cinco ou seis horas. Pela tarde vou correr 10 quilómetros ou vou nadar quinze mil metros (ou faço ambas as coisas), depois leio um pouco e oiço música. Vou para a cama às 9 horas da noite. 

Mantenho esta rotina todos os dias sem variar. A repetição torna-se a coisa mais importante; é uma forma de mesmerismo. Eu mesmerizo-me para chegar ao estado mais profundo da mente. 

Mas para manter esta repetição por tanto tempo – seis meses a um ano – requer uma grande quantidade de força mental e física. Nesse sentido, escrever um romance é como um treino de sobrevivência. Força física é tão necessária como a sensibilidade artística”. 


4. Ernest Hemingway

O autor de Por Quem os Sinos Dobram e de O Velho e o Mar, confidenciou a George Plimpton como era a sua rotina diária. 

“Quando estou a trabalhar num livro ou numa história, escrevo todas as manhãs o mais cedo possível, pouquíssimo tempo após o primeiro raio de sol. [Durante esse período] Não há ninguém que te disturbe, está sempre fresco ou, até mesmo, frio e vais aquecendo à medida que escreves. Lês o que escreveste, e como paras sempre quando já sabes o que vai acontecer a seguir, continuas ou recomeças a partir daí. Tu escreves até chegares a um ponto onde ainda tens energia e certezas sobre o que vai acontecer a seguir, mas paras e tentas sobreviver até ao dia seguinte, onde irás voltar à carga. Começas às seis da manhã e se calhar só terminas ao meio-dia ou antes disso. 

Quando paras [de escrever] estás vazio e, ao mesmo tempo, sentes-te preenchido. Tal como quando fazes amor com alguém que amas. Nada te pode magoar, nada te pode acontecer, nada significa tudo até ao próximo dia, quando o fazes novamente. É a espera até ao dia seguinte que é difícil de se ultrapassar.”


5. Henry Miller

Já aqui falamos nos 11 Mandamentos de escrita de Henry Miller, o autor de Sexus, Plexus e Nexus. Desta vez vamos publicá-los conforme foram publicados no livro Henry Miller on Writing. 

  1. Trabalha numa coisa de cada vez até estar terminada.
  2. Não começar mais livros novos, não adicionar novo material (…).
  3. Não estejas nervoso. Trabalha calmamente, alegremente, de forma prudente no que quer que tenhas em mãos.
  4. Trabalha segundo o Programa e não de acordo com o estado de espírito. Pára na hora marcada!
  5. Quando não consegues criar não consegues trabalhar.
  6. Consolida um bocadinho todos os dias, em lugar de adicionar novos fertilizantes.
  7. Mantém-te humano! Vê outras pessoas, vai a sítios, bebe se te apetecer.
  8. Não sejas um burro de carga! Trabalha apenas enquanto tiveres prazer!
  9. Descarta o Programa quando te apetecer – mas volta a ele no dia seguinte. Concentra-te. Diminui. Exclui.
  10. Esquece os livros que queres escrever. Pensa apenas no livro que estás [agora] a escrever.
  11. A escrita vem sempre em primeiro. Pintar, música, amigos, cinema, tudo isto vem depois. 


6. Kurt Vonnegut

Já mencionámos vagamente este autor no site, no artigo sobre Stephen King. Agora, apresentamos a sua rotina de escrita. 

Em 1965, Vonnegut escreveu uma carta à sua esposa Jane sobre os seus hábitos diários:

“Acordo às 5:30, trabalho até às 8:00, como o pequeno-almoço em casa, trabalho até às 10:00, caminho alguns quarteirões da cidade, faço recados, vou até à piscina municipal mais próxima, que tenho só para mim, e nado por meia hora, regresso a casa às 11:45, leio o correio, almoço ao meio-dia. À tarde, vou para a escola para dar ou preparar aulas.

Quando regresso a casa da escola por volta das 17:30, entorpeço o meu vibrante intelecto com vários copos de whiskey e água (…), faço o jantar, leio e escuto jazz (…), e vou para cama às 22:00. Faço flexões e abdominais a toda a hora e sinto que estou a ficar magro e musculado, ou talvez não”. 


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Como puderam observar, existem certos comportamentos na rotina destes grandes escritores que se repetem, nomeadamente: o facto de todos eles afirmarem que preferem escrever de manhã, muitos deles de madrugada, e que reservam a parte da tarde para realizarem uma actividade de cariz social ou desportivo. Também verificamos que reservam certo período do dia, normalmente à noite, para ler e que a maioria afirma ouvir música enquanto o faz. 

Esperamos que depois de terem lido este artigo se sintam inspirados e comecem a organizar o vosso dia-a-dia de modo a que consigam incluir a escrita na vossa rotina.



© 2016, Texto e Tradução Frederico Ferreira e JEdLP
Fontes: Paris Review


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