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✍Entrevista a Sara A. Macedo Afonso: Autora das obras 'Enquanto o tempo quiser' e 'Ver-me nos teus Olhos'






Hoje o JEdLP traz a todos os leitores uma entrevista com a maravilhosa Sara Ana Macedo Afonso, autora de Enquanto o Tempo Quiser e Ver-me nos teus Olhos. 

À conversa connosco, para além das suas obras, a escritora falou-nos do Festival dos Livros em Carção, da sua participação em diversos projectos literários e, ainda, abriu o coração ao JEdLP e decidiu partilhar com todos algumas das suas memórias, bem como sentimentos.


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Boa tarde, Sara! Antes de mais, quero-lhe agradecer por ter decidido conceder-nos esta entrevista! Peço que, para começarmos, se apresente aos leitores do JEdLP!

Boa Tarde, Raquel. Eu é que agradeço pela oportunidade de me dar a conhecer.
Sou a Sara, tenho 28 anos. Vivo e trabalho na minha aldeia. Sou ajudante de padaria e pastelaria. Sou uma devoradora de livros, sinto-me bem a escrever. Gosto de dançar e de ouvir música. Sou uma sonhadora nata e sim quero a paz mundial. Sou chata e é na escrita que me descubro e me dou a descobrir.


✍A Sara publicou duas obras através da Corpos Editora: Ver-me nos teus Olhos e Enquanto o Tempo Quiser. Fale-nos sobre elas.
Conte aos leitores do JEdLP o que podem encontrar nesses seus dois livros.

Foi no ano de 2008 que conheci esta editora através de uma amiga que conheci na universidade. Na altura eu não levava tão a sério a minha escrita, isto é, nunca na vida tinha pensado em editar aquilo que eu já escrevia desde os meus 11/12 anos. Mas ver a minha amiga com o seu livro na mão, com aquilo que ela escrevia gravado nas folha, deixou-me a pensar...Dali até começar a pensar em fazer igual, confesso que levou pouco tempo, apesar de estar cheia de medo. Mas arrisquei. Alinhei uns 50/60 textos que tinha feito desde os meus 15 anos, e comecei a ver um padrão: falavam da vida. Enquanto o tempo quiser surgiu assim com arrebatamento, intensidade, mas muito simples, muito cru, muito singelo. Era eu a expor-me ao mundo, basicamente. Passado dois anos, decidi repetir a experiência. Apesar de todos os receios senti que tinha corrido bem, que tinha encontrado um caminho diferente para me dar a conhecer à vida. E surge o Ver-me no teus olhos, com a mesma editora. Se é muito diferente? há um crescimento, uma mudança de rumo, menos pessoal talvez. São livros que falam sobre os sentimentos. Sobre a vida. No primeiro é também uma declaração de amor às pessoas mais importantes da minha vida...


Fale-me da história do primeiro (Enquanto o Tempo Quiser). Em que pessoas importantes da sua vida se inspirou para escrevê-lo e a quem o dedicou?

O livro está dividido em 3 partes: Pessoas dedicadas, 7 pecados, palavras soltas. Na primeira parte são declarações de amor puro e incondicional aos meus pais, à minha irmã, à minha família, as minhas amigas...Textos que já existiam há muito e que senti necessidade de expor. Mostrar-lhes como tudo o que me estava acontecer só fazia sentido por os ter na minha vida. Seguimos para a 2º parte onde escrevo 7 textos para os 7 pecados. E por fim, os textos onde falo sobre a vida, o amor, o suicídio, a desilusão, a morte, o amor não correspondido... É um turbilhão de emoções próprio de uma adolescente da altura.


✍Em relação à obra Ver-me nos Teus Olhos, a Sara mencionou que houve um crescimento e que ela é, de certa forma, mais impessoal. Fale-me um pouco sobre este seu segundo livro.

No 2º livro tentei deixar-me de lado e apenas escrever sobre aquilo que me rodeava. Descobri com este livro que já há muito que eu ficava atenta às conversas alheias, às pessoas que passavam na rua, às letras das musicas, à cena daquele filme...Percebi que eu era como que um «aspirador» e tudo aquilo me inspirava para escrever as minhas histórias. Sim, são textos soltos, são poesia. Para mim são mini-contos onde cada texto tem um protagonista onde desabafa aquilo que lhe mói, lhe move...


✍A Sara nasceu em Paris, no entanto, mudou-se cedo para a aldeia da sua família, Carção; onde hoje mora e trabalha como pasteleira e ajudante de padaria. Estudou Línguas e Relações Internacionais, curso que abandonou após um ano. Conte-me, de que forma influencia a sua profissão e a sua breve passagem pelo curso de Línguas e Relações Internacionais a sua escrita? E, quanto a Paris, considera que algo a une ou a liga de certa forma a tão magnífica cidade, ainda que se tenha mudado muito jovem?

Ora bem, isto está a ficar mais complexo... Então eu sou da opinião que tudo o que se passa na nossa vida influencia e muito aquilo que fazemos, principalmente na arte. Se o curso me ensinou alguma coisa? Hum, sim talvez o facto de estar longe de casa, o conhecer muita gente e tão diferente, fez-me libertar-me mais, dar mais de mim ao mundo. Fez-me também ser mais desenrascada. Quanto à minha profissão, tenho-lhe um carinho especial. Não fui eu que descobri o oficio, foi ele que me descobriu a mim. Aprendi tudo com a minha mãe. Aos poucos encontrei um rumo na minha vida e isso deixou-me mais de bem com a vida...Se isso influencia na escrita, claro que sim. Quem me lê nota consegue sentir o meu estado de espírito em relação ao que está a ler. Tudo na vida nos influencia, nos dão lições. Faz-nos crescer, mudar, melhorar...Paris??? Ai Paris...Confesso que lhe tenho um carinho especial e que várias vezes o meu «final feliz» é passado lá... É a minha cidade, sem dúvida. Adoro as minhas raízes, e não me vejo a viver em mais nenhum lado. Mas se me disserem vamos? Paris está sempre no primeiro lugar da lista. Quando estou lá, estou sempre de sorriso no rosto.


✍Participa no Movimento Poético Nacional e na Casa do Poeta em São Paulo. Quais foram os factores que incentivaram a aventurar-se e a participar nestes projectos para além do gosto pela escrita?

Quando entrei «oficialmente» no mundo da escrita, foram chegando a mim pessoas e associações que me deram oportunidades únicas. Esta foi uma delas. No ano de 2008 quando lanço o primeiro livro, o senhor Paulo Lopes na altura director da revista que fala da cultura e das tradições da minha aldeia, fez-me o convite para participar na revista com textos alusivos à aldeia, mas também deu-me um contacto de um senhor luso-descendente que vive em S.Paulo no Brasil e que é um grande impulsionador da literatura portuguesa. Comecei a falar com ele via mail e rapidamente o convite surgiu para também eu entrar neste mundo onde se dá oportunidade a todos os escritores lusófonos a escrever, a participar de saraus e reuniões...É uma honra! Não podia perder esta oportunidade que me «caiu do céu» em levar a minha escrita ao outro lado do mundo.


✍Em 2017 irá publicar o seu terceiro livro, desta vez, pelas Edições Vieira da Silva. Pode revelar ao JEdLP um pouco sobre esta sua nova obra?

Tratam-se de textos soltos. Sendo mais do mesmo, mas diferente. Há uma maturidade e exigência desde do primeiro como é óbvio. Este livro que ainda não sei dizer a data de lançamento, será de textos sobre uma relação amorosa, e as várias etapas pela qual esta passa. Isto é: cada texto é independente mas interligados entre si, criando um fio condutor em todo o livro. A ideia é criar uma espécie de diário daquela personagem ( os textos estão na 1º pessoa) e através dela descobrirmos o que é o amor e as várias facetas de uma relação amorosa... É um livro simples, pequeno mas que vem com algumas surpresas e particularidades. Mais não posso dizer.


✍Voltando à Corpos Editora, como descreveria a sua experiência com eles? Voltaria a repetir? Recomendaria a outros autores?

Bem, um bocadinho difícil responder a isto. Então é assim: são bons mas podiam ser melhores. Principalmente na parte da divulgação da obra. Se recomendo como sendo uma editora séria, pronta? Sim. Se aconselho a ler bem o contrato, a saber um pouco mais, a conhecer outros autores dessa editora? Sim, mas isso aconselho a fazê-lo com qualquer editora.


✍A Sara participou na Antologia Poética 'Entre o Sono e o Sonho' (2016) da Chiado Editora com o poema Mãe. Porquê este poema? O que a levou a dedicá-lo à sua mãe?
Fale-nos um pouco sobre ela e sobre como a inspirou.

Sim participei, foi a minha irmã que me informou sobre este projecto. E foi ela que me incentivou para participar. Foi fácil fazê-lo. Bastava escolher um texto, envia-lo e esperar que aceitassem. Foi então que pensei bem sobre o projecto e me lembrei: porque não enviar um texto sobre a minha mãe e assim prestar-lhe uma pequena homenagem, deixando para sempre gravado nas folhas de um livro o amor que lhe sinto, a admiração que lhe tenho. E assim foi. Enviei, foi aceite. É uma necessidade que tenho desde que a minha mãe faleceu de a fazer perdurar para sempre não só no meu coração mas no mundo. Ela merece que o nome dela fique na história. É uma mulher cheia de energia. Determinada e corajosa. Alegre. Uma mãe maravilhosa. Carinhosa. Aquele tipo de pessoa que faz uma sala inteira prestar-lhe atenção. Ria muito. Quase nunca se queixava. Uma mulher cheia de força. Muito teimosa. Sempre lutou por aquilo que desejava. E por isso também foi feliz. Sei que sim. Sofreu muito, mesmo, poucas vezes o mostrou. Uma mulher exemplar, uma mãe que faz muito falta. Mimou-nos muito, demasiado, talvez. Se sou persistente , é a ela que o devo. Sempre me inspirou a ser uma mulher de força, de palavra. Sempre nos incentivou a ser mulheres que se impõem. E sempre nos deixou sonhar...


✍Palavras lindas que emocionam qualquer um, Sara.

É amor.


✍Conte-me, do mundo literário, quem são as suas maiores influências? Os escritores que mais a inspiram e motivam?

Quando tinha 14 anos comecei a ler mais intensamente. O primeiro livro que tive considerado para adultos foi o Diário da nossa Paixão do Nicholas Sparks, oferecido pela minha mãe. Então tenho um carinho especial por este escritor, tendo coleccionado todos os livros dele. Segui-se Isabel Allende, também oferecido pela minha mãe. Amei...Uma escritora de garra. Nota-se em tudo o que se lê dela. Foi também com a minha mãe que conheci a Charlotte Bronte com a sua Jane Eyre. Com a escola descobri que Camilo Castelo Branco e Almeida Garrett. Sim sou uma romântica. Orgulho e preconceito de Jane Austen é uma das minhas obras preferidas. Gosto de Carlos Drummond de Andrade. E claro a minha querida e inigualável Florbela Espanca. E são estes os monstros que leiam, que me inspiram e que às vezes me deixam «borradinha» de medo porque eles são simplesmente perfeitos. Depois há a minha irmã, a minha pequenininha. De corpo, porque tem alma de gigante. Tem a determinação e alegria da mãe. E sonha muito. E isso inspira-me. E quando leio os seus primeiros passos na escrita,arrepio-me. É tão ela, jovial e intenso. Mas ao mesmo tempo tão profundo e verdadeiro...Como se andasse cá há muitos anos...


✍Quais são os seus planos para o futuro, no que se refere à escrita? Tem algum objectivo em especial?

Neste momento da minha vida já não sinto aquela necessidade de «tenho de fazer tudo para viver apenas da escrita»
Aprendi a gostar da minha profissão e sei que é ela que me vai dar o pão na mesa. Quanto à escrita não é apenas um passatempo. Tenho sonhos e objectivos claro. Um dia ser lida por muita mais gente
Saber que há pessoas que se identificam com aquilo que escrevo, basta-me.
Se vier algo mais com isso, será bem-vindo.
Mas digamos que a minha luta principal não é essa.
Escrevo porque me faz bem.


✍Considera as suas obras um sucesso? Isto é, o feedback que tem recebido dos leitores tem sido positivo?

Sim, durante todo este tempo tenho recebido muitos elogios. Há pessoas a pedir para não desistir, para continuar a escrever..Pessoas que dizem que a minha escrita é bonita. Que se identificam quando lêem. Que é fácil de entender. Para mim isso é um balanço positivo.


✍A Sara, juntamente com a sua irmã, fundou o Festival dos Livros em Carção. O que deu origem a esta maravilhosa iniciativa? E como foi pô-la em prática? Repetir-se-á?

Olha foi assim um pouco por acaso. Desde que estamos as duas neste mundo, sendo a minha irmã muito aguerrida, estávamos a falar como é difícil conseguirmos locais para divulgar as nossas obras, como é preciso trabalhar muito para conseguir um nada, e como as redes sociais ajudam em dar a conhecer outros como nós. E foi aí que percebemos que há muitos como nós aqui na região e nem sequer os conhecemos. Então que tal um evento onde houvesse um encontro, onde se partilhassem experiências, onde déssemos a conhecer à região o nosso trabalho? Primeiramente isto seria apenas mais uma conversa e ficaria por ali. Mas lá está, se queres que aconteça, faz acontecer. E continuamos a falar, a organizar, fomos pedir apoios, criamos uma pagina, falamos com os interessados. Mais tarde a minha irmã teve a ideia de convidar escritores já mais conhecidos do público. Recebemos alguns «nãos», houve contratempos, coisas que correram menos bem, falhas. Mas no geral foi um êxito. Saímos muito mais ricas, mais sábias desta experiências. Foi um ano de organização,planeamento para dois dias vividos muito intensamente. Uma experiência a repetir, sim. Faremos tudo para que o evento volte acontecer, dando sempre prioridade aos autores transmontanos, mas também alargando sempre horizontes, abrindo sempre mais portas. Estamos a programar para 2018.


✍Para terminarmos, gostaria que me falasse da Sara. Não da escritora, não da pasteleira, não da mulher, mas sim da menina. Quem foi a pequena Sara? Peço-lhe que partilhe as suas memórias de infância com os nossos leitores.

As pessoas costumam dizer que sou uma eterna romântica. Talvez porque tente sempre ver o melhor das pessoas. Apesar de ser muito pessimista. Entro facilmente em pânico. E vivo constantemente ansiosa. Ainda há pouco tempo disse ao meu noivo, no meio de uma conversa, que o meu coração é um eterno Peter Pan. Vi-o a sorrir orgulhoso. E é isto: apesar de me ter tornado uma mulher determinada e lutadora, cada vez mais, nunca deixo apagar a menina doce, muito tímida e reservada que há em mim. Tive uma infância bonita. Cheia de afectos e brinquedos. De risos e fantasias. Acreditei em tudo: No pai natal na fada dos dentes, no coelhinho da pascoa, na cegonha...Tudo. Não tinha muitos amigos. Era uma solitária na escola. Só fiz amigos muito mais tarde. Preferia a minha solidão, o meu mundo àquelas brincadeiras de recreio, à gritaria e algazarra...A minha amiga de infância é a minha irmã. Com ela construía verdadeiros mundos no nosso quarto. Sempre fui muito caseira. Preferido a família , à rua. Adorava dançar e cantar aos berros com a minha mãe e a minha irmã. Lia histórias para a minha irmã, inventava histórias na minha cabeça. A minha Barbie viva aventuras muito peculiares. Fui uma criança feliz. Muito apegada à família e ao meu mundo dos sonhos. Os que não me conheciam diziam que tinha um ar de mal disposta, de menina com a mania. Quando perdiam tempo em conhecer-me descobriam uma menina alegre, de humor aguçado e muito intensa...Tive momentos difíceis na escola, não me conseguia integrar muito bem. Os meninos da minha idade eram estranhos. Sempre me dei melhor com os crescidos. Era como se fosse duas pessoas. Passei por coisas menos bonitas nos recreios. Na altura fizeram-me sofrer. Hoje acho que me ensinaram a gostar ainda mais de mim. A ser mais confiante. Agora já não tenho medo de estar numa sala cheia de gente e barulho...e as vezes até quero dar nas vistas...Só para calar a menina que diz: Sara por favor vamos sair daqui! Mas continuo a gostar muito da menina que há em mim. Por isso a conservo. É ela que me dá a inocência e alegria que preciso para ser completa.


Muito obrigada, Sara! Foi um prazer tê-la connosco! Espero poder repetir esta entrevista no futuro, em especial para podermos falar da sua terceira obra! Um abraço e, mais uma vez, em nome da equipa do JEdLP, muito obrigada e muito sucesso!

Obrigada eu Raquel. Adorei este nosso momento. Fizeste-me lembrar de muitas coisas boas e menos boas. Estou cheia. Obrigada pela oportunidade de dar a conhecer o meu trabalho e um pouco mais de mim aos leitores. Sucesso para ti querida. É merecido. Até breve.





© 2016, Raquel C. Vicente e JEdLP


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