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✍ Entrevista a Miguel Correia: Autor de 'As Crónicas dos Tugas'



Miguel Correia poderia ser apresentado apenas como o autor de 'As Crónicas dos Tugas', mas tal coisa seria indigna da nossa parte. Este escritor português participou em diversos projectos e trabalha constantemente para valorizar a cidade de Matosinhos, de onde é natural. É autor de In Matosinhos, documentário aplaudido por muitos e que foi até candidato aos festivais de cinema DocLisboa e Curtas da Vila do Conde, e participou ainda em diversas iniciativas literárias, entre as quais destacamos a sua presença em 'A Audiência Escreveu um Crime', promovida pela AXN Portugal (inspirada na série Castle).  

Hoje, é uma grande honra para o JEdLP apresentar aos seus leitores uma entrevista incrível com este autor imparável que recorre a um incrível sentido de humor para criticar a sociedade em que vivemos e que canaliza a sua energia e criatividade para dar origem a brilhantes iniciativas. 


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 Boa tarde, Miguel! É um prazer tê-lo connosco! Antes de mais, quero-lhe agradecer por nos ter concedido esta entrevista e pela paciência! Em nome da equipa do JEdLP, muito obrigada! Gostaria de lhe pedir que começasse por se apresentar aos nossos leitores!

Desde já agradeço a oportunidade e felicito o vosso trabalho. Nasci em 25.11.1979. Natural de Matosinhos. Considero-me um novato nestas coisas da cultura. Comecei, em 2013, a concretizar alguns projectos que não passavam disso. Bem guardadinhos numa qualquer gaveta lá de casa. Entretanto, resultado da vida (extremamente) sedentária e repetitiva, resolvi ganhar coragem, expulsar a preguiça e arregaçar as mangas. Primeiro com um documentário e agora com a escrita.


 O Miguel frequentou o Curso Tecnológico de Administração e, actualmente, trabalha para o Metro do Porto. É ainda casado e pai. Conte-me, a sua profissão, os seus estudos e a sua vida pessoal influenciam a sua escrita? Se sim, será que poderia explicar aos nossos leitores de que forma?

Considero-me um filho da escola pública nacional. Doze anos a estudar – sempre com novas reformas no ensino – para trabalhar numa área totalmente diferente da minha formação. Por entre estágios manhosos, boas e terríveis experiências no mercado de trabalho. Em 2006 consegui assinar contrato com a Metro do Porto. Onde ainda desempenho funções de maquinista. Os últimos anos colocaram um pequeno (grande) dilema: como conseguir manter a lucidez (fruto de uma profissão demasiado exigente e repetitiva) sem esquecer o que aprendi na escola. A resposta foi começar a ocupar (bem melhor) os meus tempos livres. E dedicar-me a algo. Transcrever para o papel os meus pensamentos solitários pareceu-me uma óptima ideia. Em prosa, pois sou uma nulidade em poesia.


 Tal como se pode ler na sua biografia, no ano de 2013 realizou o documentário In Matosinhos, cujo objectivo é mostrar a evolução da sua cidade. Este foi candidato aos festivais de cinema DocLisboa e Curtas de Vila do Conde; teve ainda divulgação nos canais Regiões TV e Porto Canal. Para além disto, o Miguel, com a ajuda e o apoio das Juntas de Freguesia de Custóias, Leça da Palmeira e Lavra, pôde ainda apresentar o seu projecto em auditório. 
O que deu origem a esta sua iniciativa e o que sentiu ao vê-la ser reconhecida, divulgada e, ainda, a concorrer a dois festivais de cinema? Esteve ela de alguma forma relacionada com a sua paixão pelas letras?

O ponto de partida foi dado no “Dia do Porto de Leixões”. Altura em que a comunidade tem livre acesso às instalações portuárias. No auditório, exibiram um filme histórico sobre Matosinhos. Solicitei uma cópia e, em casa, começou o exercício do antes e do depois. Cheguei à conclusão que, afinal, desconhecia muitos aspectos da minha cidade. Tirando partido do meu gosto por multimédia (amador, claro!) comecei a pesquisa e resolvi criar um documentário onde abordo esta temática com imagens do passado, presente e testemunhos. Sempre criei vídeos domésticos. Ou seja, edito e depois de mostrar à familia vão para uma gaveta e pronto. Ambicionei mais! E foi com grande satisfação que recebi um e-mail do Arquivo Municipal de Matosinhos a dar conhecimento que o documentário ficaria disponível para ser visionado por quem tenha interesse. Os festivais de cinema foram actos insanos de um indivíduo que, muitas vezes, sonha alto e recusa-se a aceitar os entraves que encontra. A exibição, em auditório, foi uma forma de poder estar com as pessoas e conseguir, pelo menos, algum apoio das instituições governamentais locais. Pois, estupidamente, pensei que seria fácil conseguir a sua ajuda. Tudo o que consegui, sinceramente, enche-me de orgulho!


 Como foram as críticas a este seu projecto magnífico?

Houve uma grande receptividade para com este projecto. A nostalgia e o saudosismo estão bem vincados nas pessoas que sentem que a cidade trocou de roupa e, agora, veste-se de maneira estranha. As pessoas não se identificam! Passaram 3 anos desde a divulgação do documentário e, mesmo assim, surgem novos gostos e visualizações no blogue, com registo de mais de 20.000 visualizações. Algo completamente impensável, para mim! Inacreditável.


 Pretende repetir a experiência de realizar um documentário? Se sim, será que poderia confidenciar ao JEdLP que ideias tem em mente?

Sim, sem dúvida. Ficou a saudade de percorrer as ruas, falar com as pessoas e trabalhar em multimédia. Pretendo regressar ao vídeo. Em termos de projectos, pode passar pelo mesmo estilo, ou seja, a temática de Matosinhos ou, eventualmente, abordar um lado mais pessoal. Mas, não tenho qualquer previsão para tal.


 É evidente que o Miguel ama a sua cidade natal.
Ela inspira-o a escrever? Estimula de alguma maneira a sua criatividade?

Sim. Porque tenho a certeza que a qualidade de vida pode ser melhor. Tento realçar o “menos bom” com a expectativa que alguém concorde comigo e, pelo menos, se fale nas coisas! Ainda há tempo para recuperar património histórico e fazer as pazes com o passado. Assim queiram as entidades competentes.


Para além da escrita e dos documentários, que outra iniciativa ou tema gostaria de iniciar ou explorar?

Vou arriscar uma revelação. Gostaria de aprender a tocar guitarra. Um projecto pessoal. Não pensem que quero formar bandas ou entrar em digressões. É um instrumento que aprecio muito. Vizinhos, não se assustem!


 Em 2014 o Miguel publicou através da Chiado Editora a obra As Crónicas dos Tugas. Um livro baseado em factos «verídicos, irónicos e bizarros», de escrita humorística. Gostaria de saber o que o incitou a passar para o papel esta história e torná-la em livro.

Em Dezembro de 2013, o domentário terminou. Quis começar um novo projecto. Sem qualquer ideia pré-definida! Reparei numa situação caricata, em Matosinhos. Resolvi partilhar a brincadeira (timidamente pois envolvia política) no Facebook. Curiosamente, foi bem aceite. No dia seguinte, uma nova brincadeira com o slogan de uma imobiliária. Mais sucesso! Continuei a partilhar situações caricatas e verdadeiras e a amealhar seguidores. Um dia, num daqueles spot’s publicitários, apareceu a Chiado. Num gesto irreflectido, de plena loucura, submeti os meus textos. Recebi uma proposta contractual.


 Esta sua obra fala de um país que «nasceu mal, cresceu torto e parece que nunca mais se endireita», ou seja, fala-nos de Portugal e da sua sociedade. Tudo isto, recorrendo ao humor e à ironia. Uma obra recheada de divertidas críticas à sociedade portuguesa.
Porquê escrever sobre o seu próprio país?

A nossa fama e reputação persegue-nos. Somos os melhores antes de começar e os piores quando se termina. Seja no futebol, na política ou em qualquer outro tema. Temos tudo para melhorar e, quem sabe, aproximar a nossa cultura e eficácia aos nórdicos ou alemães, mas insistimos em facilitar, deixar andar, depois logo se vê... Costumo dizer que todos os povos têm o seu quê de trapalhão. Em Portugal parece que há monopólio...


 Na sinopse de As Crónicas dos Tugas lê-se que a história surgiu através de textos publicados no Facebook sobre diferentes temas: desde política e negócios, até futebol. Normalmente, ditos assuntos, quando convertidos em livros, são abordados de forma sombria, pesada. Com profundas e complexas reflexões que afastam muitos leitores. Porém, o Miguel optou pela leveza e pelo humor. Por quê?

Quero realçar que o meu foco de humor está na situação e não na critica fácil a uma determinada pessoa. É um humor mais trabalhado, sem dúvida. Reúne menos adeptos, porque tem ironia. As pessoas habituaram-se a desligar o pensamento e consciência. Quase como nos programas de Tv, dos anos 90, quando no estúdio alguém levantava a placa para rir, aplaudir e ovacionar. As pessoas só tinham de seguir as instruções. Este é o principal motivo, pelo qual, optei por escrita simples e curta. Para que as pessoas percebam, não percam o fio à meada e descubram uma certa moral nas minhas crónicas.


Na sua opinião, quais são os piores defeitos da sociedade portuguesa e, se pudesse, o que alteraria?

Estamos englobados nos povos com melhor legislação interna. Temos regras, bem definidas, para qualquer situação. No entanto, somos dos piores em cumprir tudo aquilo que se legislou. Há sempre um chico-esperto que encontra uma maneira de fugir. E, em pouco tempo, consegue uma porrada de seguidores. Tivessem gasto o tempo a cumprir as regras e, certamente, a vida em sociedade seria bem mais aceitável!


✍ Que tipo de mensagem pretende transmitir aos leitores com esta sua obra? Ou que tipo de sentimentos gostaria de lhes suscitar?

Curiosidade. Ao ler as crónicas, muitos vão identificar alguém! Vão rir. Vão criticar. No fundo, quero que os leitores digam: e se fosse eu?! O que faria?! Convém dizer, para salvar a minha pele, que há crónicas em que eu sou o principal interveniente. Afinal, sou Tuga!


 As Crónicas dos Tugas terá continuação?

Aproveito este momento para “auto-promoção”. Enquanto trabalhava no próximo livro, gostaria de informar que participei no e-book , com vários autores, promovido pelo “Axn Porugal” sobre a série policial “Castle”. Tem como nome; “A audiência escreveu um crime”. Está disponível para download gratuito no site do canal. Participei, também, na colectânea de prosa e poesia, promovida pela Escritartes e Mosaico de Palavras Editora, com o nome: A Arte pela Escrita 9”.
Entretanto, o mercado pode aguardar: “As Crónicas Tugas: tem de ser”. Neste momento o processo editorial está concluído e o livro está a ganhar forma na gráfica. Será uma continuação do primeiro mas com muito mais qualidade! Estou a desenvolver todos os esforços para conseguir apresentar, o livro, antes do Natal.


Se pudesse escolher um novo género literário para se aventurar, qual escolheria? E quais as razões?

Talvez o romance. Mas não arrisco. Tenho a visão calibrada para o meu modo de vida, onde as trapalhadas sucedem-se. Começaria a escrever e, mais tarde ou mais cedo, estaria a colocar a ironia e o humor. Não consigo manter a seriedade por muito tempo.


Enquanto leitor, qual é o seu género predilecto? E que escritor admira mais?

Aprecio bastante Stephen King. O misticismo e finais imprevisíveis são fascinantes.


 Qual foi a obra que mais o marcou?

“Os Maias”. Confesso que adorei a história e suas personagens. O aspecto mais negativo é a excessiva descrição pormenorizada da casa e demais situações. Tantas páginas perdidas com adjectivos e detalhes inúteis, aliados à pressão do professor em ter de ler (mesmo sem vontade), sem dúvida, que me marcou.


 O que é que espera alcançar com a sua carreira literária? Tem algum sonho em especial?

No dia em que a escrita – que faço em regime de passatempo e, com bastante alegria e diversão – se tornar demasiado séria, pura e simplesmente, deixo de escrever. Todos os textos são escritos com o coração e, de forma, a que eu me divirta com o que faço. Não sou profissional ou tenho imposições da editora. Sonho? Certamente gostaria de receber, das pessoas, metade do carinho que emprego aos meus projectos. Gostaria de um pouco de reconhecimento – afinal quem não sonha com a fama?! – mas, são sonhos. É algo que aparece quando estamos a dormir. A realidade, caramba, é bem diferente.


As Crónicas dos Tugas foram publicadas pela Chiado Editora. Como descreveria a sua experiência com eles?

Uma equipa jovem. Bastante prestável. Claro que não estamos a falar numa editora ao estilo americano, em que o autor escreve e fica a aguardar contactos para entrevistas. A maior parte do trabalho promocional recai sobre o autor. Principalmente quando se trata de um ilustre desconhecido! Realizei mais de 35 sessões de apresentação, por todo o país e, posso afirmar que 25%, das mesmas, foram por iniciativa da editora. As restantes foram fruto da minha insistência e perseverança contra um mercado livreiro que não gosta de forasteiros (novos autores).


 Pretende repetir a experiência de publicar com a Chiado? Recomendaria a editora a outros autores?

O próximo livro será editado também pela Chiado Editora. Tendo em conta o espírito de sacrifício e vontade em promover o nosso próprio trabalho, sim, posso recomendar a outros autores.


 Para terminarmos esta entrevista, vou-lhe pedir que me fale do Miguel. Não do homem, não do realizador de documentários, não do escritor, tampouco do pai e marido. Mas sim do menino! Gostaria que me falasse do menino Miguel, que partilhasse com os leitores do JEdLP memórias da sua infância. Que lhes abrisse o coração! E sinta-se à vontade para recorrer ao humor!

Pergunta complicada! Eu que digo à minha filha que me portava bem! Não posso dizer que me afastei muito dos tempos de menino. Tenho saudades da ausência de responsabilidades, dos amigos e das longas horas de brincadeira ao ar livre. Sim, havia computadores – sou da geração “Commodore Amiga” – mas havia vontade de correr, jogar à bola e outras coisas mais. Há uma parte de mim que ficou lá! Porque não quer crescer. Porque, lá, tudo fazia sentido! Recebi a minha primeira (e única) bicicleta quando os meus amigos já andavam de scooter. Fazia vários quilómetros para visitar um amigo que tinha jogos de computador e cassetes de vídeo (os mais novos procurem no google). A mochila vinha carregada de horas de entretenimento. Wrestling, corridas, filmes e até as Tartarugas Ninja 15, 16 e 17. Pois claro! Os filmes “maiores de 18” tinham de ser “escondidos” de alguma maneira. Os seus pais tinham acesso à lista dos filmes...


 Muito obrigada por ter concedido esta entrevista ao JEdLP! Foi um prazer tê-lo connosco! Espero poder repetir esta entrevista com uma nova obra da sua autoria! Em meu nome e no de toda a equipa, muito obrigada, muito sucesso e parabéns! Foi uma honra!

Reforço os votos de sucesso e felicitações para o vosso trabalho de divulgação de escritores. Foi um enorme prazer! E, até breve.

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